Experimento Savanização

Home » Pesquisas » Experimento Savanização

Experimento Savanização

Qual o papel de incêndios florestais recorrentes no empobrecimento das florestas da Amazônia?

Por que queimar a floresta?

Pouco sabemos sobre os impactos causados pelo fogo na vegetação da Amazônia, apesar de previsões sugerirem que incêndios florestais se tornarão ainda mais frequentes e mais intensos no futuro. Essa falta de conhecimento se dá porque raramente é possível prever onde e quando incêndios florestais ocorrem, o que inviabiliza a quantificação do comportamento do fogo, bem como os seus efeitos à estrutura e à dinâmica de florestas. Uma maneira de lidar com esse problema é a realização de queimadas experimentais com local e data conhecidos, o que possibilita a medição dos parâmetros necessários para se avaliar os potenciais efeitos do fogo na vegetação. E é exatamente isso o que estamos realizando na fazenda Tanguro.

O que queremos saber?

O experimento "Savanização" tem como objetivo identificar e quantificar variáveis que controlam o comportamento do fogo em florestas da Amazônia. Além disso, queremos saber qual a intensidade e frequência de incêndios que poderiam transformar as florestas da Amazônia em florestas secundárias empobrecidas, de maneira permanente. Algumas das nossas perguntas são:

- Em que condições climáticas, a combustão do material combustível (ex., galhos e folhas no chão da floresta) pode facilitar a ocorrência de incêndios florestais devastadores?

- Qual a contribuição de incêndios florestais para as emissões de carbono para a atmosfera?

- Aquelas florestas alteradas por incêndios florestais rasteiros se tornam vulneráveis à invasão de espécies não nativas da região?

- Quais os efeitos do fogo para a fauna?

- Qual a intensidade de incêndios florestais que pode ser detectada com técnicas de sensoriamento remoto?

- Como podemos criar ferramentas preventivas sobre os impactos de queimadas na Bacia do Xingu e em outros lugares da Amazônia?

Sobre o experimento:

O maior experimento de fogos consecutivos em andamento nos trópicos localiza-se em uma floresta de transição do Mato Grosso, município de Querência, Brasil. Estamos utilizando incêndios florestais controlados para quantificar os determinantes ecológicos e microclimáticos de espalhamento e intensidade do fogo. Além disso, estamos quantificando a resposta da vegetação a diferentes frequências de fogo.

Mais especificamento, em maio de 2004, três blocos de 50 hectares (ha) foram implantados na fazenda Tanguro. Em dois destes blocos, fogos experimentais são realizados em duas diferentes frequências: anualmente e trienalmente. Temos também uma parcela controle de 50 ha que nunca é queimada. Dentro da área experimental, foram inventariados sistematicamente mais de 10.000 árvores. Além do acompanhamento da regeneração e mortalidade destas árvores, vários parâmetros são mensurados ao longo do ano: abertura do dossel, crescimento de árvores, microclima, dentre outros.

Os fogos experimentais:

Os fogos experimentais são conduzidos com a utilização de um equipamento chamado "pinga fogo", enxarcado com querosene, ao longo de trilhas perpendiculares à estrada que fica ao lado da mata. Poucos minutos antes do início da queima, são medidos a quantidade de material combustível (bem como a sua umidade), o microclima da floresta e a quantidade de nutrientes e de umidade no solo. Durante a queima, são medidos altura, largura e velocidade da chama, e microclima no sub-bosque da floresta.  Após a passagem do fogo, realizamos o mapeamento das áreas queimadas e medimos a altura e largura das cicatrizes deixadas pelo fogo nas árvores.

Quais são algumas das nossas descobertas?

- A convergência entre seca e os distúrbios florestais podem criar um cenário para fogos muitos intensos. No ano de 2007, por exemplo, os efeitos do fogo foram muito superiores àqueles dos anos anteriores, transformando a floresta experimental em um sistema altamente degradado. Sem as queimadas de 2007, não poderíamos ter atingido esse limiar de resistência da floresta aos distúrbios causados pelo fogo e, portanto, o nosso estudo teria chegado a conclusão que a floresta de transição do Mato Grosso poderia ser altamente resistente ao fogo.

- Florestas de transição afetadas pelo fogo tornam-se suscetíveis à invasão de gramíneas não nativas, dificultando a regeneração natural da vegetação.

- Nosso trabalho experimental tem mostrado que as florestas de transição são extremamente vulneráveis a incêndios recorrentes. A mortalidade de árvores e cipós aumentou 80% e 120%, respectivamente, em relação ao controle. Além disso, os incêndios florestais forçaram uma diminuição na quantidade de espécies de 50% em relação a florestas não afetadas pelo fogo, sendo que a maior parte da regeneração ocorreu por rebrotos ao invés de plântulas provenientes de sementes.

- Foram liberadas 22 toneladas de C ha-1 pela combustão de material combustível do piso da floresta (ex., folhas e ganhos). Depois de três anos do primeiro do fogo, 62 toneladas de necromassa ha-1 foram acumuladas na floresta, aumentando as emissões potencias de C para a atmosfera em 27 toneladas ha-1.

Medidas de seguranca:

Todas as medidas estão sendo tomadas para assegurar o conforto e a seguranca das pessoas envolidas na queima controlada e para assegurar que os fogos sejam restritos a área designada. Estamos utilizando os protocolos para a condução de queimas controladas do manual chamado "O manual dos bombeiros no combate a incêndios florestais: estratégias, táticas e segurança", por William Teie, publicado em 2005.

O equipamento que utilizamos para a queima é de metal e especialmente desenvolvido para a condução de queimas controladas em ambientes florestais, sendo utilizado pelo Servico Florestal dos Estados Unidos. As pessoas envolvidas nos fogos experimentais vestem roupas resistentes ao fogo (marca: NOMEXIII), desenvolvidas para bombeiros. Todos as pessoas envolvidas na queima também utilizam máscaras, para prevenir a inalação de fumaça, e capacete para evitar acidentes causados por queda de galhos. A seguranca das pessoas é a principal prioridade.

Um dia antes da queima, realiza-se um minicurso sobre seguranca. Esse curso é conduzido por representantes do Grupo Amaggi e pelo gerente do Ipam responsável pelo experimento. Uma estratégia foi planejada para que todas as pessoas envolvidas no experimento possam deixar a área nas quais os fogos são conduzidos com segurança.

Todas as equipes envolvidas no experimento possuem rádios para que haja uma comunicação constante. Os gerentes de campo monitoraram os membros de cada equipe para que as pessoas com sinais de cansaço físico ou mental possam ser levadas a um local de descaço seguro. Finalmente, uma ambulância e um enfermeiro estão presentes, para o caso de alguma emergência.

Galeria de fotos