Clima e Floresta

Home » Edição 13 - 15/08/2009 » 127

Certificação bovina não traz preocupações com a sustentabilidade

Flávio Bonanome*

Aproveitando o foco midiático que ganhou os problemas da pecuária na Amazônia desde as denúncias do Greenpeace em junho, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) anunciou, no começo do agosto, a criação de um novo sistema para certificação de origem da carne bovina vendida nas redes varejistas. Apesar das boas intenções, a iniciativa, que já reúne as três maiores redes de supermercado e os três maiores grupos frigoríficos do país, não abrange os critérios de sustentabilidade desejáveis.

O projeto, que está sendo elaborado pela certificadora internacional SGS, já conta com as adesões dos grupos Pão de Açúcar, Wal Mart, Carrefour, Marfrig, Bertin e JBS e, segundo a Abras, estará pronto entre 60 e 90 dias.  A ideia é que os produtos com o selo tenham a garantia de que não são originários de propriedades rurais em desacordo com as legislações ambientais, fundiárias e trabalhistas.

Porém, o mecanismo não tem preocupações quanto à sustentabilidade do modelo produtivo no bioma.  "Nós não temos intenção de ampliar este processo para a área de sustentabilidade, é uma certificação de origem.  Para as questões ligadas ao meio ambiente já existe o Ministério do Meio Ambiente para cuidar", afirma Sussumo Honda, presidente da Abras.  Esta postura do setor empresarial tem sido o alvo das principais críticas por parte de ambientalistas a certificações de legalidade.

Segundo Honda, a iniciativa de criar o mecanismo surgiu após as recomendações feitas pelo Ministério Público quanto a não compra de produtos provenientes de fazendas com situação irregular.  "Para o setor de varejo, a recomendação não pegou só de surpresa, mas colocou estas empresas numa situação muito desconfortável diante da opinião pública e diante de seu público", explica Honda.  O presidente lembra que as principais empresas de varejo trabalham com capital aberto, inclusive fora do país, e as denúncias poderiam gerar imagem ruim para os acionistas.

De acordo com Mário Menezes, diretor adjunto da organização Amigos da Terra - Amazônia Brasileira, garantir legalidade não é suficiente, é preciso buscar maneiras de atestar sustentabilidade. "Somente atestar a origem e legalidade não basta. O que nós precisamos é de um sistema de certificação validado pela sociedade, para assegurar que a produção - de carne, no caso - não está se dando a custa de desmatamento e perda de biodiversidade", explica o ambientalista.

Para Menezes, o modelo de garantia que deveria ser dado é outro. "Qualquer bioma brasileiro só será protegido se conseguirmos estruturar um processo de certificação que alcance todo o setor agropecuário brasileiro, que tenha como unidade de verificação o imóvel rural ou o empreendimento e validado pela sociedade brasileira", afirma.  Desta forma, segundo o ambientalista, qualquer produto oriundo de uma propriedade certificada teria sua origem garantida.

Questionado sobre a real condição de o novo sistema impedir o desmate, Honda se esquiva. "Quando falamos de floresta amazônica, a primeira coisa que se tira da floresta é a madeira. O boi chega depois, então acho que precisamos saber criar prioridades. Hoje ela é o boi, mas não vejo isso no setor madeireiro", afirma o presidente.  Ao contrário do que pensa Honda, tanto pesquisadores como ambientalistas concordam que a pecuária é o maior vetor do desmatamento na floresta.

*Flávio Bonanome é jornalista do site www.amazonia.org.br

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