Clima e Floresta
Home » Edição 04 - 01/07/2008 » 86
Descarbonizar a matriz é fundamental para a segurança energética
Maura Campanili
Populações de países em desenvolvimento serão as mais atingidas pelo uso insustentável dos recursos naturais. (Foto: David McGrath)“A perspectiva econômica dos países mais pobres será ameaçada pela utilização insustentável dos recursos naturais, por parte das nações desenvolvidas ou por aqueles países vítima de crises econômicas mundiais. Se nós não mudarmos rapidamente o modelo de transporte veicular e de uso doméstico de energia, veremos uma poluição descontrolada e mortal”, disse Israel Klabin, presidente da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), que acaba de voltar de Tel Aviv, Israel, onde participou da Conferência Internacional sobre Energias Renováveis e Mudanças Climáticas, realizada no final de maio, da qual fez parte da organização e foi responsável pela conferência de abertura, com o tema Mudanças Climáticas e Geopolítica.
Segundo Klabin, os especialistas presentes, entre os quais Dan Rabinowitz, da Gershon H. Gordon Faculty of Social Sciences, e Michael B. McElroy, da Universidade de Harvard, defenderam a necessidade de incorporar cada vez mais ciência avançada nas pesquisas para construção de modelos globais relacionados às mudanças climáticas e também para viabilizar a utilização em larga escala das energias renováveis. Durante o evento, foram mostradas experiências principalmente relacionadas às energias solar e eólica, consideradas mais viáveis. “A biomassa também foi abordada, mas só sob os aspectos técnicos, não se entrou nas questões políticas”, disse.
Para o presidente da FBDS, com o preço do petróleo aumentando, o custo de energias alternativas passou não apenas a ser viável, mas uma questão de segurança energética. “O petróleo é finito e a ciência se encaminha para substituir esse combustível seja a que preço for. No entanto, as reservas de carvão são ainda infindáveis, mas as altas taxas de emissões de gases de efeito estufa que provocam mostram que o fim de sua utilização também está próximo. A China tem mostrado que a utilização do carvão é inviável do ponto de vista ambiental”. No caso brasileiro, Klabin acredita que a biomassa é uma boa alternativa, mas é preciso aumentar as pesquisas, que não deveriam se ater apenas ao etanol e às fontes de biodiesel já conhecidas. “Não podemos também esquecer a energia hidrelétrica, pois o Brasil ainda é privilegiado nisso”.
Em sua conferência em Tel Aviv, Israel Klabin defendeu que as conseqüências de não se tomar atitudes agora em relação às emissões de gases de efeito estufa são trágicas sob o ponto de vista ambiental, social e econômico. “O aquecimento global afetará todos os fatores que são a base da civilização conhecida e nos levam a um futuro desconhecido. A discussão sobre o que é ou não global já está posta pelos conflitos sobre o que é interesse nacional e o que é interesse da humanidade como um todo. Isso tem produzido uma demanda por um novo modelo de governança. O conceito de segurança não é mais nacional. Ele depende da disponibilidade de energia, alimento e condições para a vida. O acesso a esses recursos se tornou mais importante hoje do que nuca e a situação, definitivamente, não é sustentável.”
Segundo Klabin, a se seguir a tendência atual, não se espera mudanças substanciais na emissões até 2030, pois as mudanças na matriz energética têm sido lentas, a escassez de água é também uma ameaça real, o desmatamento deverá continuar acelerado – o que também agrava o quadro das emissões -, e o sistema veicular de transporte deve aumentar a demanda de energia e tornar as grande cidade inabitáveis. O crescimento econômico previsto até 2030 não é viável do ponto de vista ambiental.
Entre as possibilidadespara alterar esse quadro, o presidente da FBDS cita a criação de políticas responsáveis sobre mudanças climáticas, que incluam taxas de carbono, mecanismos de mercado para diminuir emissões (cap and trade), além do aumento de verbas para estudos científicos sobre o tema. Para Klabin, quanto mais países participarem de ações para mitigação das mudanças climáticas, maiores serão as reduções globais. Por isso, acredita que a participação de países como Brasil, China e Rússia são fundamentais.
“Muitos países estão tentando, individualmente, encontrar soluções para as emissões e para políticas de mitigação. O Japão, por exemplo, tem conseguido importar menos petróleo e, ao mesmo tempo, fazer a economia crescer. A Guiana propôs um sistema de redução de emissões por desmatamento e degradação (REDD) em toda sua área de Floresta Amazônica. E a União Européia se propôs a reduzir em 20% suas emissões até 2020 e aumentar em 20% a utilização e energia renovável.” Os maiores desafios apontados pelo presidente da FBDS são a descarbonização da matriz energética, o que somente será possível com o desenvolvimento intensivo de energias renováveis, e a preservação e reflorestamento das florestas, fundamentais para a sustentabilidade da vida no planeta.
Aprovamos comentários em que o leitor expressa suas opiniões. Comentários com termos vulgares e palavrões, ofensas, dados pessoais e links externos, ou que sejam ininteligíveis, serão excluídos. » Conheça as regras para aprovação de comentários no site do IPAM
English



