Clima e Floresta
Home » Edição 03 - 01/05/2008 » 95
Desmatamento: metodologias de monitoramento precisam convergir
Maura Campanili
Explicitar diferenças entre sistemas de monitoramento podem aumentar a credibilidade dos dados. (Foto: Maria Fernanda/IPAM)Uma das principais condições para a aplicação de qualquer mecanismo de compensação por serviços ambientais na floresta, como a relacionada à Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD) é a existência de um sistema eficiente de monitoramento do desmatamento. Com um monitoramento oficial realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Brasil já obteve várias mostras de reconhecimento internacional nesse setor.
Nos últimos tempos, no entanto, a conjunção de um aumento expressivo no desmatamento na Amazônia e a divulgação de números diferentes entre o levantamento do INPE e o do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), boletim mensal produzido pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e pelo Instituto Centro de Vida (ICV) motivaram cobranças e desconfianças sobre os dados, principalmente por parte de Blairo Maggi, governador do Mato Grosso, estado apontado pelo INPE como o que mais desmatou a partir de novembro de 2007, quando os índices voltaram a subir.
No início deste mês de maio, o INPE finalizou um relatório sobre as informações da Secretaria de Meio Ambiente do Mato Grosso, que afirmava ter feito levantamento fotográfico em campo e que 89,98% dos desmates apontados pelo Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real) do INPE não tinham acontecido recentemente. Segundo a análise do INPE, porém, das 662 fotos levantadas pelos agentes estaduais, 313, eram repetidas, 78 estavam distantes dos locais de alerta de desmatamento, 65 foram classificadas como fotos não informativas e outras 45 não se referem aos pontos indicados pelo Deter.
Das 353 imagens consideradas válidas pelo INPE, 57,2% são de desmatamento por degradação progressiva e 39,4% imagens de corte raso da floresta. Apenas, 1,4% não foram classificadas como desmatamento de floresta e 2% como desmatamento de áreas não florestais. Assim, concluiu que houve sim desmatamentos em 96,4% dos casos analisados.
O episódio mostra que polêmicas são um ótimo caminho para confundir e não para resolver problemas. Por conta disso, pesquisadores do INPE e do Imazon têm procurado entender as diferenças nos seus levantamentos para minimizar dúvidas e aumentar a credibilidade dos dados, evitando contestações. À Clima em Revista, porém, o INPE não atendeu para explicar as diferenças entre os dados. Já o pesquisador do Imazon Carlos Souza diz não querer polemizar. “Temos metodologias e imagens diferentes, apesar de usarmos o mesmo sensor (o satélite Modis, da Nasa)”.
Conforme Souza, o Modis é um sensor de resolução moderada, cuja menor umidade é 250 metros, que permite pegar desmatamentos acima de 10 hectares. “O Modis percorre a região a cada um dia e meio e, pelo que entendemos, o INPE utiliza a melhor imagem do mês, ou seja, a que tiver menos nuvens. Nós utilizamos um outro produto disponibilizado pela Nasa, que é uma composição de imagens de 16 dias, que filtra as melhores imagens eliminando as nuvens. Teoricamente, é uma imagem com menor cobertura de nuvens”, explica.
Ainda segundo o pesquisador do Imazon, há também diferença no critério adotado para desmatamento pelas duas entidades. “Nós analisamos a floresta entre um período e outro e detectamos alteração de biomassa e solo exposto. Se o trecho analisado tiver queda de vegetação maior de 25% e solo aparente acima de 15%, é considerado desmatamento. Com isso, pegamos florestas convertidas, com corte raso ou muito alteradas. Depois disso, analistas verificam se essa detecção, que é automática, foi causada por desmatamento ou foi falha ou falta de qualidade do dado (uma nuvem não filtrada, por exemplo). Feito isso, geramos as estatísticas”.
Já o Deter do INPE captura não só o corte raso, mas também estágios iniciais de degradação, o que acaba por reportar um desmatamento maior, principalmente no Mato Grosso. “Conseguimos entender essas diferenças recentemente, a partir de conversas, mostrando que realmente os métodos são diferentes”, diz Souza.
Segundo o pesquisador, o próximo boletim do Imazon já será para a Amazônia toda (e não apenas Mato Grosso e Pará) e deverá trazer diferenciação entre desmatamento e degradação. “Eventualmente, existem erros em cada um dos métodos, já que a precisão é de 85%, mas o mais importante é que os sistemas apontem o que é desmatamento e o que é degradação, o que vai evitar confusões. Com cada sistema bem explicitado, as diferenças de dados devem diminuir. O ideal é que se consiga chegar a esse nível de convergência”, diz.
Deter e Prodes
O Deter é um projeto do INPE (ligado ao Ministério de Ciência e Tecnologia), com apoio do Ministério do Meio Ambiente e Ibama, e faz parte do Plano de Combate ao Desmatamento da Amazônia do governo federal. Seu objetivo é fornecer ao governo e à sociedade informações quinzenais sobre novas áreas de desmatamento na Amazônia. Para tanto utiliza sensores de menor resolução espacial com alta freqüência espacial de 250 metros.
Além dele, existe o Projeto Prodes - Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite, cujo objetivo é fazer um levantamento da interferência humana sobre a Floresta Amazônica, dentro dos limites da Amazônia Legal Brasileira. Realizado pelo INPE desde 1988, produz estimativas anuais das taxas de desflorestamento da Amazônia, através de imagens do satélite Landsat. A comparação de imagens obtidas em anos sucessivos permite avaliar o desflorestamento no período. O resultado é expresso na forma de mapas em escala 1:250.000, referenciados às cartas do IBGE nessa escala. Esses dados têm servido de entrada em estudos de emissão de carbono e de outros ciclos bioquímicos.
Lançado em 2006, o SAD, do Imazon, foi criado com o intuito de ser o primeiro sistema independente para monitorar o desmatamento em tempo real, por meio de imagens de satélite, com informações sobre a devastação da floresta disponíveis na internet e atualizadas todo mês.
SAIBA MAIS: Imazon ; Deter ; Prodes.
Aprovamos comentários em que o leitor expressa suas opiniões. Comentários com termos vulgares e palavrões, ofensas, dados pessoais e links externos, ou que sejam ininteligíveis, serão excluídos. » Conheça as regras para aprovação de comentários no site do IPAM
English



