Clima e Floresta
Home » Edição 23 - 30/07/2010 » 217
Florestas primárias na Amazônia são mais tolerantes à seca
Jaime Gesisky
Uma recente pesquisa realizada na Amazônia mostra que as florestas relativamente intocadas são mais tolerantes à seca sazonal do que aquelas altamente degradadas. Porém, mesmo com maior capacidade de tolerar as secas, há um limite suportável além do qual a produtividade da floresta intacta se reduz. Os resultados do estudo publicado na Revista PNAS, da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, mostram que as respostas das florestas da Amazônia à seca envolvem processos bastante complexos que ainda não haviam sido colocados em discussão pelos cientistas e que podem afetar as conclusões sobre a vulnerabilidade dessas florestas às mudanças climáticas. O trabalho reuniu cientistas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), da Universidade da Flórida (UF) e do Woods Hole Research Center (EUA).
O estudo indica que a maior produtividade da floresta medida com o satélite MODIS durante uma seca severa pode ser devido aos efeitos da falta de água no solo sincronizando a produção de folhas. “Esta pode ser uma explicação para os diferentes resultados entre os estudos que mediram os impactos da seca de 2005 nas florestas da Amazônia”, diz o principal autor Paulo Brando (IPAM – UF).
O estudo utilizou análises de campo e dados obtidos por sensoriamento remoto, incluindo dados de índices de vegetação (EVI) das estações secas de 2000 a 2008, do MODIS. Foram combinados dados climáticos de 1996 a 2005 registrados em 280 estações meteorológicas. Relações estatísticas entre os índices de vegetação e outras variáveis também foram analisadas para toda a Bacia Amazônica e, mais intensamente, a Bacia do rio Tapajós.
A pesquisa constatou que houve diminuição da precipitação durante a estação chuvosa, enquanto a disponibilidade de luz na estação seca aumentou, com importantes consequências para a ciclagem de carbono na região. De acordo com a pesquisa, a capacidade das florestas da Amazônia de ciclar carbono durante períodos de estiagem foi maior onde a cobertura vegetal era mais densa.
Devido ao processo de degradação florestal na Amazônia e as previsões de um clima mais seco em algumas partes da Bacia Amazônica, os autores enfatizam a necessidade de melhor integração de dados de campo e estudos de sensoriamento remoto para que se possa realmente entender como secas previstas num futuro próximo afetarão essas florestas.
Para Brando, o estudo contribui para o melhor entendimento sobre os mecanismos que controlam as variações de produtividade das florestas da Amazônia, o que por sua vez possibilita um melhor entendimento de como a Amazônia poderá ser afetada por mudanças climáticas. Além de acrescentar novos dados ao debate sobre a vulnerabilidade da vegetação seca, os pesquisadores conseguiram obter importantes padrões no clima em toda a Bacia Amazônica entre 1996 e 2005.
O lançamento do estudo coincide com demandas da comunidade científica para um melhor entendimento sobre como a floresta amazônica e outras florestas tropicais podem responder à seca relacionada à mudança do clima e uso da terra.
Scott-Goetz, coautor do estudo explica que esta análise é a única que capta com grande detalhe como a produtividade da floresta varia de acordo com as medições meteorológicas, especialmente durante os anos de seca. “Nossos achados condizem com trabalhos anteriores, mas vão além, no sentido de realmente vincular o impacto das alterações climáticas com a resposta da floresta pelo crescimento de novas folhas”, diz o pesquisador.
De acordo com Daniel Nepstad (IPAM), também coautor, o estudo demonstra em maior profundidade que a resposta da floresta à seca é complexa. “Seria prematuro tirar conclusões definitivas sobre a suscetibilidade da floresta amazônica à seca somente com dados de sensoriamento remoto”, afirma.
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