Clima e Floresta
Home » Edição 08 - 01/11/2008 » 45
John Cain Carter:“Só Deus me apoiou
Maura Campanili
John Carter e família: lutando para manter sua reserva florestal. (Foto: Arquivo pessoal)Proprietário de uma fazenda no Mato Grosso, John Carter há anos luta para fazer o seu direito de manter sua Reserva Legal. Depois de sucessivas invasões e queimadas em sua propriedade, o fazendeiro considera que sua luta foi em vão, pois sua mata hoje virou cinzas. Para tentar conseguir ajuda, Carter produziu em 2007 um documento que chamou de “Manifesto John Cain Carter” e enviou a diversas autoridades. Neste ano, uma nova carta foi escrita e encaminhada, sem sucesso. Para ele, atualmente na Amazônia não há vantagem para quem respeita a Lei. “Somente com governança e incentivos financeiros, essa tendência pode ser revertida”, diz.
Clima em Revista – Onde fica a Fazenda Esperança e o que é produzido lá?
John Carter – Fica no município de Bom Jesus do Araguaia, no noroeste do Mato Grosso e produz pecuária de corte.
Clima em Revista - A reserva a que se refere na carta enviada em outubro para as autoridades é a Reserva Legal? Corresponde a qual porcentagem da propriedade?
John Carter - Sim, é a Reserva Legal de 50% da propriedade, averbada na escritura da fazenda, com licenciamento ambiental e georeferenciamento. O restante foi desmatado nos anos 1980.
Clima em Revista - Há quanto tempo o senhor tem tido problemas de invasões e incêndios em sua reserva? Quem são os invasores e o que pretendem?
John Carter – Os incêndios na fazenda são anuais, nossa mata queimou pela primeira vez em 2004, depois em 2007, e agora em 2008. Ela não existe mais. Invasores criminosos atearam fogo. Eles são pagos para invadir a área dos outros. É grilagem. Tiram a terra na bala e depois vendem para posseiros. É o velho oeste. A lei é uma piada.
Clima em Revista - Quais providências o senhor vem tomando ao longo desse tempo para que isso não aconteça? A quem tem recorrido?
John Carter - Além de estradas feitas na mata, construí pontes para dar acesso aos lugares isolados e levo turistas na mata para que seja utilizada. Mas não tirei nada de madeira. Com as invasões, fiz boletins de ocorrência, um manifesto de fogo com 80 páginas, relatos da ocorrência com fotos de satélite em hora real e notificação para todas as autoridades: governador, procurador federal, promotor, Ibama, Secretaria Estadual do Meio Ambiente, Política Militar, Política Federal, ministros, prefeitos, e Deus. Só Deus me apoiou. Foi somente depois que nossa mata foi destruída que a justiça reagiu e deu reintegração de posse. Imagine que alguém pode invadir nossa mata, derrubá-la, queimá-la, estrupá-la e nada acontece. Eu não posso proteger o que é meu. Agora, se fazendeiro "furlano de tal" corta um galho, ele é colocado no Jornal Nacional. O direito de propriedade é somente garantido quando você desmata. Deixar mata em pé é um convite para o diabo entrar. Quem quer lutar com o diabo? Tem que lutar fogo com fogo, uma coisa que a maioria não quer. Daí desmata tudo para não ter que enfrentar esse dilema.
Clima em Revista - O que é o Manifesto John Carter? Por que o elaborou?
John Carter - O manifesto era um jeito de focar minha fúria, um jeito de mostrar a postura absurda e perversa que o movimento ambiental toma hoje, inclusive do Ministério do Meio Ambiente e do Ibama. A Amazônia está na mídia todo dia no mundo inteiro, mas ninguém fala a verdade. O fato é que quem tem terra legalizada paga o preço de todo o desmatamento que acontece lá. Os bandidos não respondem por seus atos. Eles continuam tomando conta do norte do Mato Grosso, Pará, Rondônia etc., desmatando sem punição. É fácil culpar o produtor rural por tudo, fazendo dele o diabo. Mas, para mostrar que a governança está ausente, não acontece nada. Isso aconteceu no mundo inteiro e vai acontecer na Amazônia se não tiver incentivos econômicos para manter a mata em pé. Eu, um cidadão que fez tudo que a lei exigiu de mim, uma pessoa que adorava a mata e que fez uma empresa de turismo só para por um valor em cima dela, não consegui protegê-la. Eu perdi uma batalha e achei que nunca perderia. Dezenas de viagens, centenas de telefonemas, contatos, favores etc. Fiz um esforço imenso para pedir ajuda, certamente mil vezes mais do que qualquer outro proprietário faria para proteger sua reserva. É irônico que nossa fazenda não está tão longe da "civilização" e, mesmo assim, nada aconteceu. Agora, se não dei conta de proteger uma matinha de 4.000 hectares, imagina os milhões de hectares que estão lá no meio de nada?
Mesmo ligando para todo mundo que achei que teria interesse em ajudar a proteger a mata, ganhei zero de apoio. ONG nenhuma veio para me ajudar. O governo virou a cabeça. Eu entendo a posição do governo porque, até ter uma razão econômica forte para deixar a mata em pé, o governo não vai mostrar a vantagem política necessária para lutar por ela. Isso é a natureza do ser humano. Agora, ONGs ambientais fazem suas vidas gritando para o mundo para salvar Amazônia, por que eles não entram no assunto pesado de grilagem, crime organizado etc.? Porque é mais fácil bater no produtor rural, pessoas que muitas vezes derrubam tudo para manter o direito da propriedade contra os bandidos. Olhando para traz, eu deveria ter feito isso. Perdi 12 anos de produção agrícola naquela área, não aproveitei da madeira, e hoje preciso fazer uma operação de guerra para receber de volta o que é meu! Nada resta da mata, só cinzas.
Clima em Revista - Na sua opinião, o que precisaria ser feito para resolver esse tipo de problema na Amazônia?
John Carter – Em primeiro lugar, vantagem política. São bilhões de reais produzidos nessa situação de anarquia que existe hoje na Amazônia. É um mercado negro que vai continuar se não resolver a questão fundiária. A corrupção adora esta anarquia. O incentivo hoje é para pegar seu pedaço de mata, derrubar, botar gado e vender por dez vezes mais do que você pagou nela em dez anos. É uma corrida para fazer dinheiro fácil, que acontece uma vez na história da fronteira. Sabendo que a fronteira é rápida e eficiente e que a governança é lenta e ineficiente, o povo briga por cada metro de chão, inclusive das reservas legais, sabendo que eles têm a vantagem do lado deles. É difícil, porque os políticos precisam de um incentivo maior do que esta situação atual oferece para que eles realmente possam mudar o esquema e focar em soluções. Outra frente são os incentivos econômicos. Enquanto o solo valer mais do que a mata, a mata vai continuar caindo. Sem uma solução financeira, políticos vão ter que fazer uma coisa contra a vontade da população, um certo suicídio para quem precisa de votos. O barulho vem de fora para controlar desmatamento, leis federais são feitas, medidas punitivas implementadas e zero ação no campo, porque os municípios, prefeituras e políticos regionais não aceitam. É uma batalha que vai resultar em uma Amazônia pelada.
Clima em Revista – Mecanismos de remuneração pela redução da degradação e do desmatamento (REDD) seriam uma solução?
John Carter - O mais importante é a governança, porque sem ela, não existe crédito de carbono. Qual empresa seguradora vai segurar uma área de regeneração de mata ciliar, Área de Preservação Permanente ou Reserva Legal, se ela corre um risco enorme de ser torrada por fogo todo ano ou invadida por bandido? Incentivos econômicos também vão demorar a se tornar realidade e, urgentemente, precisa de comando e controle no curto prazo para segurar a onda. Se tiver os dois andando juntos, vamos ter uma vitória. Daí o produtor vai ter um razão para manter mata em pé, para vigiar a Reserva Legal dele, para denunciar desmatamento ilegal. Se você está recebendo dinheiro pela conservação, você vai brigar por ela. Se alguém está pagando você pelo carbono estocado em suas matas ou pelo carbono sendo seqüestrado de áreas de recuperação, você vai ficar furioso quando um grileiro ou um vizinho irresponsável bota fogo em seu "profit center". Hoje existem medidas simples e baratas que podem ser implementadas imediatamente. Melhor ainda, o custo não seria tão grande. Por exemplo, oito helicópteros esparramados em áreas críticas no estado de Mato Grosso, junto com os sistemas de monitoramento via satélite que existem hoje, ia fazer um efeito espetacular, garantido. Ao invés de simplesmente fazer alvo os produtores que têm o documento da terra, a fiscalização deveria apoiar essas pessoas, dar um apoio moral para produtores na hora da invasão e do fogo. Para funcionar, certamente precisamos de um governo com o desejo de fazer a coisa certa. Hoje, os valores econômicos para fazer a coisa errada estão tão altos, que todo mundo finge querer salvar aquela "porcaria verde". O que falta é um sistema de remuneração financeira para quem protege a mata. Necessitamos de um mecanismo que premie produtores que adotam boas práticas agrícolas, aqueles que estão querendo entrar na legalidade e, mais importante, premiando os poucos que deixaram sua Reserva Legal em pé dentro de sua propriedade.
Clima em Revista – Mas o senhor acredita que já houve algum avanço na área ambiental no Mato Grosso? Se houve, por que não têm sido suficientes para garantir a preservação da floresta?
John Carter - O setor da soja está fazendo critérios para a produção de soja na mesa redonda de soja. Tem iniciativas de premiar produtores pelas boas práticas e conservação. A fiscalização do Ibama ultimamente teve um efeito super-positivo. As queimadas diminuíram muito neste ano por causa dos helicópteros posicionados em Mato Grosso. O problema é que essas ações são esporádicas. Em 15 anos, vi com meus olhos uma área enorme de mata desaparecer com um piscar de olhos. Nada segurou a onda. Se não tiver mecanismos para compensar ambos, o governo e o proprietário rural, para preservar a mata, ela será derrubada. Não precisa de um PhD na frente do nome para entender isto.
Clima em Revista - O setor agrícola, em geral, diz que a manutenção da Reserva Legal inviabiliza financeiramente a propriedade. O senhor concorda com isso ou acredita ser possível produzir na Amazônia mantendo a reserva legal?
John Carter - A resposta está em São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Bahia, Mata Atlântica... Olhe as imagens de satélite e me diga se existem Reservas Legais atrás da fronteira atual da Amazônia. Para implementar o Código Florestal em áreas que ainda tem mata será difícil. Ninguém respeita mais. Virou uma piada. As regras do jogo mudaram tantas vezes que não existe uma linha de base para igualar tudo. Seria até imprudente obedecer a lei, quem sabe se ela vai mudar de novo. Pessoalmente, fico muito preocupado com a questão climática da região e acredito que precisamos manter a mata dentro dos limites de cada propriedade, não podendo simplesmente compensar ela em outro lugar distante. É óbvio que as chuvas estão diminuindo por causa do desmatamento. A primeira coisa para ser feita seria determinar de uma vez a porcentagem de Reserva Legal. Somente quem já desmatou e não tem mais sua Reserva Legal poderia compensar esse passivo em outra área. De alguma forma, quem tem mata dentro da propriedade não deve ser penalizado na hora de comercializar sua área. Ela tem que valer igual às fazendas que estão peladas, em termos de reais por hectare. Se não, os produtores mantendo vegetação nativa dentro de suas propriedades deveriam receber pagamentos por esse serviço. O fato é que hoje em dia mata em pé só trás prejuízos em termos de invasões e custo de oportunidade.
Aprovamos comentários em que o leitor expressa suas opiniões. Comentários com termos vulgares e palavrões, ofensas, dados pessoais e links externos, ou que sejam ininteligíveis, serão excluídos. » Conheça as regras para aprovação de comentários no site do IPAM
English



