Clima e Floresta

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Marcelo Leite: mudança climática será pauta mais importante do mundo

Maura Campanili

Jornalista Marcelo Leite (Foto: Arquivo pessoal)

Um dos mais reconhecidos jornalistas brasileiros em ciência e meio ambiente, Marcelo Leite acompanha as discussões sobre mudanças climáticas há quase duas décadas e acredita que se os efeitos que se projetam hoje para os próximos 10 ou 20 anos acontecer, esse será o assunto jornalístico mais importante do mundo, pelo poder de afetar a todos. Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o jornalista é colaborador do caderno Mais! do jornal Folha de S. Paulo, responsável pelo blog Ciência em Dia e autor de vários livros, entre eles “A floresta amazônica” (série Folha Explica, 2001), “Promessas do Genoma” (Editora da Unesp, 2007), “Brasil, Paisagens Naturais – Espaço, Sociedade e Biodiversidade nos Grandes Biomas Brasileiros” (Editora Ática, 2007). Além disso, acaba de lançar “Ciência, Use Com Cuidado” (Editora Unicamp, 2008). Segundo Leite, entramos em um novo patamar de comunicação e de aceitação das mudanças do clima. “Sabemos que elas estão em curso e devemos nos preparar para o que vem pela frente.”

Clima em Revista – O jornalista Claudio Angelo, editor de Ciência da Folha de S. Paulo, disse no livro “O Aquecimento Global”, que esse é provavelmente o maior problema que a humanidade já teve de enfrentar coletivamente. Você concorda com essa afirmação?

Marcelo Leite –
Acho que o Claudio Angelo tem razão e está devera ser a pauta mais importante do mundo. Precisamos parar de ver apenas a conjuntura econômica internacional e a política nacional. Depois disso, o que afeta todo mundo? Com certeza, as mudanças climáticas afetam e vão afetar cada um de nós, nossos filhos e netos. É uma pauta que vai ficar por muito tempo e, no longo prazo, é o maior desafio da humanidade. Podemos até ampliar a discussão para a sustentabilidade, com recursos como água e petróleo, por exemplo. Mas a mudança climática é o tema mais abrangente.

Clima em Revista – Em setembro, você conversou com cerca de 40 jornalistas em Cuiabá, durante o seminário “As Mudanças no Clima e a Agricultura de Mato Grosso”, organizado pelo Instituto Socioambiental e o Instituto Centro de Vida, sobre a questão do clima e o papel da imprensa e da comunicação. Qual o principal recado que foi levado aos participantes e a sua impressão sobre o esclarecimento dos jornalistas em geral sobre o tema?

Marcelo Leite –
Entramos em um novo patamar de comunicação e de aceitação das mudanças clima. Sabemos que elas estão em curso e devemos nos preparar para o que vem pela frente. Os jornalistas não discutem mais se elas vão existir ou se os seres humanos são os culpados. Temos de saber como poderemos sobreviver a elas. Hoje, há várias pessoas escrevendo sobre o assunto, mas são poucos os que realmente o conhecem. No Brasil, ainda há a idéia de que terras indígenas e unidades de conservação estão congelando as terras e criando um freio ao agronegócio. E essa idéia tem ganhado força em estados como Mato Grosso do Sul, Rondônia e Roraima e está se espalhando. Tem também saído muitos artigos dos céticos da mudança climática, colocando o tema como conspiração internacional e pregando contra o desenvolvimento sustentável.

Clima em Revista – Está faltando comprometimento dos meios de comunicação?

Marcelo Leite –
Há uma adesão muito forte dos meios de comunicação, mas é superficial, com raízes pouco profundas. Houve o relatório do IPCC e o filme do Al Gore em 2007 e acho que agora o assunto já diminuiu. Mas é precipitado falar que essa cobertura seja apenas uma bolha. A tendência é o assunto crescer na pauta política: bem ou mal, o governo federal está lançando o Plano Nacional de Mudança Climática, o governo de São Paulo também está se mexendo, inclusive com o protocolo da cana. Acredito que as mudanças climáticas vão acabar se impondo como pauta por duas vias. Em primeiro lugar, por meio dos impactos, o que vai acontecer em longo prazo, por exemplo, se as galerias pluviais de São Paulo ficarem insuficientes. A outra via são as obrigações legais ou o mercado de carbono. No acordo pós-Quioto haverá obrigação, mas pela via da oportunidade, como por exemplo a redução de emissões por desmatamento e degradação, o REDD, onde o governo já avançou. Também há o Fundo da Amazônia, no qual ninguém acreditava quando a ex-ministra Marina Silva começou a falar e agora a Noruega doou um bilhão de dólares. O governo diz, ainda, que há outras negociações com empresas e governos e o G-7 também tem dado dinheiro para a questão ambiental. Mas existe uma coisa preocupante: se os impactos começarem a surgir, haverá menos dinheiros para os países em desenvolvimento, porque os governos dois países ricos terão que cuidar dos efeitos em seus próprios países.

Clima em Revista – Como os jornalistas podem abordar o assunto, sem que ele caia na vala comum do noticiário? Como é possível fazer uma boa cobertura sobre o aquecimento global?

Marcelo Leite –
Existem duas vertentes de cobertura do assunto e os jornalistas precisam fugir das armadilhas. Em primeiro lugar, existe mais de 20 anos de história sobre mudança climática e desde que o tema veio à tona foi criado todo um vocabulário, que inclui nomes como mitigação, adaptação, forçante radiativa, REDD. O assunto é complexo e exige conhecimento. A complexidade da ciência não é só de nomenclatura, é difícil mesmo. Escrever sem falar besteira não é fácil. E há ainda a complexidade das negociações internacionais. É difícil dar acesso a esse tipo de informação. Mas há o segundo problema, que é como lidar com as incertezas. Essa parte, porém, já foi mais difícil, pois antes havia mais margens para questionamentos, achavam que quem abordava o assunto era militante ambientalista. Com o tempo, isso diminuiu. A tecnologia e a densidade de captação de informação para os modelos climáticos melhoraram. Isso melhorou também a vida do jornalista. O grande ponto de mutação foi o sumário do IPCC de fevereiro de 2007, dizendo que o aquecimento era inequívoco e que nenhuma teoria explica tão bem o que está acontecendo como a intervenção humana. Agora, como resolver a melhor maneira de dar essas informações, é em cada matéria que se decide. Analogias, por exemplo, são bem-vindas. Para o jornalista que está chegando na área ou precisa melhorar seu desempenho a única dica é que só se fica bom jornalista quando se enfrenta o desafio de aprender: tem que estudar. Quando fui a Paris fazer a cobertura desse primeiro sumário do IPCC, por exemplo, cheguei na coletiva já bem preparado porque tinha conseguido com cientistas uma cópia (ainda preliminar) do documento e tinha lido tudo, inclusive as notas de rodapé, coisinhas que ninguém lê, mas que ajudam a entender as minúcias. Se você entende essas questões, passa a ter coisa diferente. Mas para isso, precisa ler relatório, livros, ir a congressos e palestras. Há ainda uma tendência de não questionar as fontes com as quais você concorda, por medo de tirar força daquilo que você acredita. Isso significa dar espaço para qualquer coisa. Cada jornalista tem que avaliar a credibilidade da fonte que vai utilizar. Mudança climática é uma oportunidade para o jornalista, precisa apenas ter disposição, saber inglês e estudar. O jornalismo científico é uma boa forma de entrada, pois dá base de profundidade, o que é bom para aumentar o senso crítico.

Clima em Revista – Pelo que você diz, a mudança climática entrou na pauta da imprensa, mas a mensagem já atingiu o público?

Marcelo Leite –
Não tem como não ser atingido por essa pauta. A ficha já caiu, mas de maneira superficial. As pessoas ainda não mudaram hábitos e posições políticas por conta disso. Na verdade, mudar hábitos é importante, mas posição política é mais, porém os hábitos individuais não mudam o mundo. Mas se cada um mudar sua posição política, vai passar a exigir de candidatos e círculos políticos que incluam o assunto nas suas atividades. Se você é jornalista, vai exigir que o tema entre na pauta do jornal. Se é publicitário, vai deixar de fazer campanhas que tragam mensagens erradas. Se é gestor público, vai incluir medidas nas suas ações. O consumo não é pecado, gostamos de consumir coisas legais, como roupas, livros e computadores. A questão é alterar hábitos na direção de maior autenticidade no consumo, não baseada em necessidades ditadas de fora. Mas não pode ficar só na mão do consumidor.

Clima em Revista – Seu novo livro, “Ciência – Use Com Cuidado” (Editora Unicamp, 2008), acaba de ser lançado. Do que se trata?

Marcelo Leite – É uma coletânea de 80 colunas minhas na Folha de S. Paulo, selecionadas entre as publicadas semanalmente desde 2002, e acompanhadas
de comentários de atualização e reflexão sobre jornalismo científico. Como o título diz, é um apelo para que as pessoas se informem sobre ciências naturais e comecem a pensar sobre elas com a própria cabeça, sem aceitar o prato feito só pelos próprios pesquisadores e pelo jornalismo científico pouco crítico. São 280 páginas e tem um prefácio do filósofo da ciência Hugh Lacey.

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