Clima e Floresta
Home » Edição 05 - 01/08/2008 » 76
Mitigação do aquecimento global traz grandes desafios
Maura Campanili
Carlos Nobre fala sobre desmatamento e mudança climática em seminário do FBDS. (Foto: Divulgação/FBDS)O sistema de produção atual na Amazônia é o principal fator a impedir o fim do desmatamento e, conseqüentemente, um empecilho à diminuição das emissões de carbono. Para resolver o problema, é necessário investir fortemente em tecnologia que aumente o valor da floresta em pé. Essa é a opinião do meteorologista Carlos Nobre, coordenador-geral do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE), um dos expositores do seminário “Os fatores limitantes à implementação de medidas mitigadoras do aquecimento global”, realizado pela Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), no dia 7 de agosto, em São Paulo.
Nobre voltou a defender que, para reduzir o aquecimento global, não dá para deixar de fora o desmatamento florestal, responsável por cerca de 18% das emissões. “Já cruzamos pelo menos um dos pontos de não retorno do clima, no Ártico, onde em menos de 50 anos não haverá gelo no final do verão. Talvez já tenhamos cruzado outros, sem saber. Se conseguirmos diminuir em 50% o desmatamento até 2050, teremos entre 10% e 12% das metas de diminuição de 50% das emissões até aquele ano”, disse. A maior questão, para o pesquisador do INPE, é se é possível diminuir o desmatamento na Amazônia e no Cerrado de forma permanente.
Um exemplo do modelo econômico insustentável vigente na Amazônia, segundo Nobre, é a produção de gado, ocupando cerca de 2 cabeça por hectare. “Esse índice tem melhorado, mas ainda é muito lento. Deveríamos ter de duas a três cabeças por hectare”. Lembra ainda que o crescimento do gado tem sido intenso na região, passando de 29,9 milhões em 1992 para 77,6 milhões em 2006, com um aumento de 150%, enquanto o crescimento do rebanho brasileiro foi de 33%. Disse ainda que os 17.000 km2 não desmatados entre 2005 e 2007, quando houve queda no desmatamento na Amazônia, representaram cerca de 220 milhões de toneladas de carbono não emitidas, o que equivale a 2,2 bilhões de dólares no valor de mercado do carbono. Por conta disso, afirma que “não é sábio não se criar mercado para o desmatamento evitado”.
Carlos Nobre acredita que o grande desafio é como transformar o Brasil no primeiro país tropical desenvolvido do mundo. Para ele, a resposta está em se tornar uma potência ambiental e, para tanto, a Amazônia é a chave para criar um novo modelo sustentável para os trópicos. A grande dificuldade seria a falta de modelos disponíveis para copiar: não há país tropical plenamente desenvolvido; países tropicais são fornecedores de matérias-primas com baixo valor agregado; a bioprospecção ainda não produziu grandes resultados; há uma desconexão entre pesquisa aplicada e população. O fato é que o modelo tradicional (soja, madeira, pecuária) é insustentável ambiental, social e economicamente – responde por menos de 0,5% do PIB do país.
Esse novo modelo para a Amazônia passaria pela criação de Institutos de Tecnologia da Amazônia (ITAs), uma proposta da Academia Brasileira de Ciência, que prevê a criação de universidades na floresta. “O nome é exatamente para lembrar o papel do ITA de São José dos Campos para a indústria aeronáutica brasileira”, afirma. O objetivo seria desenvolver entre 50 e 100 produtos em escala global a partir da biodiversidade da região.
Transportes
Se a questão do desmatamento na Amazônia já é um assunto complexo, quando se fala em transporte, o desafio mundial é ainda mais complicado. O setor cresce a um ritmo de 2% ao ano (tanto em países industrializados como em desenvolvimento) e é em 96% dependente do petróleo (no Brasil, esse índice é de 83,9%, ficando os combustíveis renováveis com 12%, o gás natural com 3,8% e a eletricidade com 0,2%). O sistema rodoviário de transporte predomina no mundo e os motores têm um índice de eficiência baixo.
Essas informações foram dadas no seminário pela secretária Nacional de Mudanças Climáticas e de Qualidade Ambiental, Suzana Kahn, que é membro do ICPP e, antes de assumir a Secretaria, era pesquisadora do Programa de Engenharia de Transportes da COPPE da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “A mitigação nessa área não é trivial”, avisa. Enquanto outros setores, como o industrial, tiveram alguma redução nas emissões nos países industrializados do Anexo I, o transporte tem uma participação cada vez mais expressiva nas emissões mundiais. Além disso, quase metade da energia gasta em transporte é de carro particular, em um mundo onde boa parte da população não tem acesso ao transporte motorizado.
Mantida a taxa de crescimento atual, a energia do transporte em 2030 será 80% maior do que em 2002 (na China, cresce 6% ao ano, na Índia, 4,7%, na América do sul, 3%, nos países da OECD, entre 1% e 2%). Nos Estados Unidos, as viagens por veículo particular representam 90% e, na Europa Ocidental, 50%. Segundo Suzana Kahn, a projeção do número de automóveis, que hoje está na casa dos 800 milhões, eleva esse número para 1,3 bilhões em 2030 e 2 bilhões em 2050. “Mesmo com a introdução de novas tecnologias, não há renovação da frota, mas sim aumento”, disse.
Entre as possibilidades de mitigação no setor, a secretária de Mudanças Climáticas cita a tecnologia, com a produção de combustíveis mais eficientes e adequados, como os veículos híbridos, que já existem comercialmente. “No entanto, as forças de mercado sozinhas não promoverão mudança significativa no setor, pois nem sempre o veículo mais econômico é o que o consumidor quer comprar. Além disso, até hoje, os ganhos tecnológicos foram perdidos com o aumento da frota e dos congestionamentos”.
A introdução de combustíveis mais limpos e biocombustíveis, que podem ser sustentáveis ou não, também precisaria aumentar, pois 3% até 2030 seria muito pouco. Poderia chegar a algo em torno de 5% a 10%. “Já as políticas de planejamento urbano e de transporte são muito importantes, mas dependem de políticas locais e difíceis de serem replicadas”, disse Kahn.
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