Clima e Floresta

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Oswaldo Carvalho Jr.: Florestas particulares são fundamentais para biodiversidade na Amazônia

Maura Campanili

Oswaldo Carvalho Jr., coordenador do Projeto Biodiversidade. (Foto: IPAM)

Áreas de florestas mantidas em propriedades privadas na Amazônia, em forma de Reserva Legal e Área de Preservação Permanente (APPs), são fundamentais para manter a biodiversidade. É isso o que indica pesquisa coordenada pelo biólogo Oswaldo Carvalho Jr., do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), na região nordeste do Mato Grosso, nas cabeceiras do Xingu, em uma área de transição entre o Cerrado e a Amazônia. Lá, o IPAM está monitorando as populações de grandes mamíferos em quatro propriedades, entre elas a Fazenda Tanguro, do Grupo Amaggi, onde realiza, desde 2004, seu estudo sobre efeitos do fogo na Floresta Amazônia. Levantamento da biodiversidade, nos 50 hectares de floresta preservada desta propriedade, mostra que a cadeia ambiental está completa.

Clima e Floresta – Por que os mamíferos são bons indicadores ambientais?

Oswaldo Carvalho Jr. – Os animais desempenham papel muito importante no ambiente em que vivem. Eles são responsáveis pela dispersão de sementes de diversas árvores, pela predação de outras e também pela polinização, ajudando ativamente nos processos que influenciam a dinâmica e a manutenção desses ambientes. Alguns grupos de animais podem ser usados como indicadores da qualidade ambiental, uma vez que características como presença, abundância e sucesso reprodutivo podem indicar a sustentabilidade ambiental de uma propriedade. Assim, é possível considerar que a presença de mamíferos de grande porte é um indicador de boa qualidade, pois são bichos grandes, que usam áreas extensas e, portanto, têm um maior nível de exigência ambiental.

Clima e Floresta - Por que um estudo como esse é importante para a região do Xingu. Desde quando e onde vem sendo realizado?

Carvalho – Avaliar os impactos das diferentes formas de uso da terra sobre a biodiversidade é fundamental para entendermos e desenvolvermos as melhores formas de utilização dos recursos naturais, conciliando assim o desenvolvimento socioeconômico com conservação ambiental. A Fazenda Tanguro, com aproximadamente 50 mil hectares de floresta de transição entre Cerrado e Floresta Amazônica, tem um importante papel, tanto na produção de soja como na conservação da biodiversidade local. Quando começamos o projeto do fogo, em 2004, já tínhamos a ideia de monitorar os bichos, mas era difícil, pois tinha mais de 20 pessoas trabalhando, o que espantava os animais na fazenda. Mesmo assim, começamos a fazer inventários dos bichos que víamos no dia-a-dia e rapidamente vimos que a área era importante, pois encontramos 85% das espécies previstas em inventários para a região. Os outros 15% que não vimos eram espécies naturalmente raras, de baixa densidade ou hábitos noturnos.  Assim, em 2007, começamos a fazer um trabalho para saber se a fazenda Tanguro é um bom representante da região. Queremos saber se as populações são viáveis no longo prazo.

Clima e Floresta – Como o estudo foi feito em campo?

Carvalho – Para conhecermos as espécies de mamíferos que habitam essa floresta utilizamos alguns métodos diferentes: armadilhas fotográficas automáticas, identificação de pegadas e observação direta. Com isso, já confirmamos a presença de 38 espécies de mamíferos de médio e grande porte. Esse número corresponde a aproximadamente 90% das espécies que ocorrem na região, sendo que as espécies ainda não observadas ocorrem naturalmente em números bem pequenos, o que dificulta sua observação. Dentre os animais observados podemos destacar: 3 espécies de macacos (macaco-prego, bugio e macaco-aranha), 4 espécies de canídeos (lobinho, lobo-guará, cachorro-do-mato e cachorro-vinagre), 2 espécies de veados (mateiro e cinza), 2 espécies de porco-do-mato (cateto e queixada), 5 espécies de felinos (onça-parda, onça-pintada, jaguatirica, gato-mourisco e gato-maracajá), 4 espécies de tatu (canastra, galinha, rabo-de-couro e peba), 2 espécies de tamanduá (bandeira e de-colete). Além disso, também já observamos bicho-preguiça, anta, irara, cutia, paca, ariranha, capivara, esquilo, quati, mão-pelada, entre outros.

Clima e Floresta – O estudo foi ampliado também para mais três propriedades. O que já é possível afirmar sobre essas outras áreas?

Carvalho – Acabamos extrapolando para outras áreas porque precisávamos saber o tamanho das populações, o que deu origem ao projeto que é meu doutorado, na Universidade de Kent (Inglaterra), sobre conservação de biodiversidade em fronteira agrícola. Não tenho as respostas ainda, apenas um senso populacional, já que andamos mais de 2.500 km em trilhas dentro da floresta. Pelo que temos até agora, mais uma propriedade apresentou o mesmo padrão da Tanguro, as outras duas apresentaram um padrão mais baixo. Isso acontece porque aqui é uma área de transição de floresta para cerrado, com reflexo direto nas espécies que acontecem e suas quantidades. Nesse mosaico de paisagens, onde há mais florestas, como na Tanguro, são mais altos os índices de observação. Uma curiosidade é que o macaco-aranha não era esperado na região e encontramos em duas propriedades. Certamente é a ocorrência mais meridional para a espécie, que é típica da Floresta Atlântica.

Clima e Floresta – Quais são os próximos passos da pesquisa?

Carvalho – Devo concluir em dois ou três meses a análise de viabilidade de sete espécies (macaco-prego, quati, anta, veado-catingueiro, veado-mateiro, cateto, além de uma ave, o nambuaçu). Hoje, sei que há tantos indivíduos por km2 e, através de um sofware posso saber quantos teremos em 30 ou 50 anos. Depois, quero pegar esses dados e comparar para os cenários para a Amazônia do estudo do IPAM, para ver a viabilidade das espécies em cada cenário.

Clima e Floresta – E o que o estudo tem mostrado em relação à conservação ambiental na região?

Carvalho – Embora essas informações ainda sejam preliminares, os resultados indicam que a fazenda Tanguro é uma área importante para a conservação da biodiversidade da região, tanto pelo número de espécies encontrado como também por apresentar uma alta abundância de animais do topo de cadeia alimentar (predadores). Além disso, essa grande área de floresta encontra-se mais protegida do que muitos parques e reservas, mostrando a grande importância das reservas privadas na conservação da biodiversidade. Vale lembrar que, nesta fazenda, há uma intensa atividade agrícola de produção de soja e milho. Isso é importante, porque se imagina que lugar com soja não tem biodiversidade, mas na Tanguro dá para assumir que a cadeia alimentar está completa. É um indicador da importância de se manter a Reserva Legal e as Áreas de Preservação Permanente (APPs). Precisamos lembrar que, na Amazônia, a quantidade de áreas de floresta em áreas privadas é cerca de três vezes o que se tem em unidades de conservação.

Clima e Floresta – A exemplo do projeto Cenários, como esse trabalho dialoga com os demais projetos desenvolvidos pelo IPAM na região?

Carvalho – Além de trabalharmos com os cenários de paisagens, o Cadastro Socioambiental do Xingu, que implica em compromisso dos proprietários com a recuperação das matas ciliares, deverá aumentar o fluxo de animais e influir nas populações. A ideia é criar um protocolo de monitoramento de biodiversidade nas propriedades do cadastro. Para isso, já temos o Manual de Pegadas, através do qual os proprietários e os funcionários podem reconhecer as espécies através de seus rastros. É uma forma de valorizarem e conhecerem as espécies que têm na propriedade e ajudar a gerar informações.

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