Clima e Floresta
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Tasso Azevedo: Brasil precisa zerar desmatamento e controlar emissões de energia
Maura Campanili
Tasso Azevedo, consultor do Ministério do Meio Ambiente. (Foto: Arquivo pessoal)Embora zerar o desmatamento continue a ser o maior desafio brasileiro para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa, o país precisa também trabalhar para não aumentar suas emissões no setor de energia. Essa é a opinião do engenheiro florestal Tasso Azevedo, primeiro diretor geral do Serviço Florestal Brasileiro, atualmente consultor do Ministério do Meio Ambiente. “Nos últimos anos, a produção de energia no Brasil aumentou cerca de 70%, mas as emissões para produção de energia mais que dobraram. Isso significa que o Brasil está sujando sua matriz energética, embora seu perfil ainda seja muito bom”, afirmou nesta entrevista à Clima em Revista.
Clima em Revista – Qual é o principal desafio do Brasil em relação às emissões de gases de efeito estufa?
Tasso Azevedo – Com os novos números de emissões, o perfil brasileiro está mudando. Em 1994, era 55% por desmatamento, 25% pela agropecuária e 20% entre energia, indústria e resíduos. As estimativas para 2007 são de uma proporção de 40%, 30% e 30%, respectivamente. Com isso, o desafio brasileiro continua ser eliminar o desmatamento. Mas precisa também não entrar em rota de uma energia que leve a um aumento de emissões. O Pré-Sal também é um desafio, pois pode aumentar as emissões da indústria, por conta de extração e refino.
Clima em Revista – Como o Brasil pode eliminar o desmatamento?
Azevedo – Cumprindo sua meta para redução do desmatamento na Amazônia e ampliando para todos os biomas. Hoje, o compromisso é reduzir na Amazônia, mas ela representa só 60% das emissões por desmatamento; 40% estão nos outros biomas (Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica). A meta deve ser zero em todo o país. Entre 1994 e 2007, as emissões brasileiras totais cresceram entre 10% e 20%. É uma das menores dos países em desenvolvimento e a menor entre os emergentes. Cem por cento desse resultado deve ser creditado à queda do desmatamento; caso não tivesse caído, as emissões teriam explodido.
Clima em Revista – Em relação às demais fontes de emissão, quais são as prioridades?
Azevedo – Precisamos reverter a tendência de aumento na intensidade de emissões por unidade de energia. Nos últimos anos, a produção de energia aumentou cerca de 70%, mas as emissões para produção de energia mais que dobraram. Isso significa que o Brasil está sujando sua matriz energética, embora seu perfil ainda seja muito bom. Outro desafio é encontrar uma solução para a pecuária. Mais de 90% das emissões do setor agropecuário vêm do metano dos bois. Como grande parte do desmatamento na Amazônia também é vinculado à pecuária, podemos dizer que sozinha, direta ou indiretamente, a pecuária é responsável por quase 50% das emissões brasileiras. Por isso, é central, para atacarmos nossas emissões, conseguirmos ter uma pecuária sustentável, sem desmatamento, tecnologicamente tratada, por exemplo, com enzimas que diminuam as emissões da ruminação, e práticas de manejo.
Clima em Revista – Que papel os mecanismos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal (REDD) podem colaborar para diminuir o desmatamento?
Azevedo – O desmatamento tem várias origens e causas, mas é sabido que, na percepção dos agentes que atuam na Amazônia, a floresta vale menos em pé do que desmatada. Assim, qualquer mecanismo que dê valor ao serviço de manter a floresta em pé é fundamental. O REDD é uma possibilidade, mas não o REDD em si, mas instrumentos de incentivo para REDD. Já temos ótimos programas para fazer REDD, o que ainda falta, em escala nacional e global, são os mecanismos. No Brasil, o Fundo Amazônia é a maior experiência nessa área, mas precisa mais, como criar vínculo direto com benefício específico para o agente que está conservando a floresta. Quem está preservando tem que ter a clareza que terá um benefício. Temos propostas no Brasil, mas as fontes de recursos dependem de negociações que vão acontecer em Copenhague, na COP 15. O importante é fazer com que, sejam créditos de carbono ou fundos e contribuições internacionais, os incentivos possam chegar à ponta, a quem está conservando a floresta, e que seja baseado em resultados.
Clima em Revista – Se o REDD é tão importante, por que o governo brasileiro tem tanta resistência em sua inclusão no mercado de carbono?
Azevedo – Tanto o REDD, para florestas, quando as Ações de Mitigação Nacionalmente Apropriadas (Namas), que não são definidas como metas, mas como compromissos, como por exemplo, reduzir metano na pecuária em escala nacional, são importantes. A questão, nestes dois casos é: os resultados dessas ações poderão ser utilizados por países desenvolvidos para compensar emissões? A posição brasileira é que pode até haver mecanismos de compensação, desde que tenhamos garantia de que, no final, a conta geral de redução de emissões globais seja suficiente para garantir que a temperatura do planeta não aumente mais de 2º C. Para fazer essa conta, é preciso definir uma meta global para todos e determinar quando disso será feito pelos países desenvolvidos e quanto será feito pelos países em desenvolvimento, através da redução do ritmo de crescimento de suas emissões. Pela conta do IPCC, é necessário reduzir entre 25% e 45% as emissões dos países desenvolvidos até 2020 (a partir de 1990) e a conta só fecha se os países em desenvolvimento reduzirem seu ritmo. Para o Brasil, só pode haver compensação no que exceder isso, caso contrário, a conta não fecha.
Clima em Revista – O que significa para os países em desenvolvimento diminuir o ritmo de emissões?
Azevedo - Está na Convenção do Clima que a conta do corte de emissões deve ser paga por quem já se desenvolveu. Hoje, as emissões globais crescem 0,5% ao ano. Se a meta for estabilizar, suponhamos, em 2020 nos níveis de hoje (2009) e os países desenvolvidos se comprometerem a reduzir 30%, os países em desenvolvimento precisariam reduzir o ritmo de aumento de emissões em 30%. Isso é difícil. Na Índia, há 400 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza, que ainda não emitem praticamente nada. É um desafio descomunal para a humanidade, já que o desenvolvimento até hoje foi feito na base de aumento de emissões per capta. É mais fácil para os desenvolvidos diminuírem emissões, pois já têm infraestrutura, do que os em desenvolvimento diminuírem o ritmo.
Clima em Revista – Qual deverá ser a postura do governo brasileiro nas negociações em dezembro, em Copenhague?
Azevedo - O Brasil pode, deve e desejamos que chegue em Copenhague com posição proativa para um acordo ousado. A proposta do país deve ser colocar na mesa o que se comprometerá voluntariamente para diminuir emissões. O Brasil pode efetivamente propor estabilizar e até reduzir suas emissões até 2020.
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